nestas aventuras, vou-me cruzando com muitos taxistas. a maioria deles não conseguiria descrever no minuto seguinte a sair do carro. passo por eles com algum alheamento. entro no
táxi e fico autista. fecho-me naquele espaço em que posso olhar a janela sem ver nada. minutos preciosos só meus, segundos em que não tenho de dar respostas. é uma sensação de leveza
incrível, como se voasse daqui para fora. e agradeço quando me deixam assim...
uns nunca falam, outros tentam a conversa de
circunstância que interrompe o meu voo e só me consegue arrancar um par de
monossílabos. outros lançam umas palavras intrigantes que me acordam... como
este ontem apanhei outro desses. interrompeu a minha discussão filosófica com o T. sobre o papel do estado na gestão dos bens comuns. era economista, brasileiro. vivia em França até ter vindo a crise de 2008. regressou ao Brasil para como ele diz "se capitalizar". "aqui é um país em que você pode fazer tudo. se
você quer fazer um negócio, aqui é
possível"
segundo ele, a corrupção no Brasil é mais democrática, na Europa (em Portugal) é mais elitista. "aqui é facilitadora... se eu quero parar meu carro aqui p'ra descarregar mercadoria, vou falar com o policia e a gente dá um jeito. na
Europa, vinha logo a multa. no Brasil sempre se dá um jeito. por isso é que o país avança apesar de tudo,
inclusive apesar de ter um presidente louco! o Brasil não é nem preto nem branco, é cinzento e é nesse cinzento que você tem que se mexer. as regras existem, mas todo o mundo as pode contornar p'
ra fazer as coisas avançarem - se a cerca é alta passa por baixo, se é baixa salta por cima! e qualquer um pode, basta querer. e não tem que conhecer X ou Y ou ter o nome A ou B p'
ra falar com o manda-chuva como lá em Portugal, aqui você vai directo a quem tá tratando do assunto e aí da um jeito. você faz a introdução -
olha o que é que a gente pode fazer p'ra resolver isto - e aí ele te ajuda"
lições a reter...